RESENHA
HISTóRIA DAS PRIMEIRAS INSTITUIçõES PARA ALIENADOS NO BRASIL
ODA, A. M. G. R; DALGALARRONDO, P. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 12, n. 3, p. 983-1010, set.-dez. 2005.
Indexação: MEDLINE.
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Autores:
Ana Maria Galdini Raimundo Oda
Doutora em Ciências Médicas. Pesquisadora do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
anaoda@uol.com.br
Paulo Dalgalarrondo
Livre-Docente do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
Até recentemente, a maioria dos estudos sobre a história do processo de constituição da psiquiatria brasileira, bem como da institucionalização dos chamados loucos ou alienados, dirigia seu foco para o Rio de Janeiro e para São Paulo, sendo as pesquisas realizadas, sobretudo, em torno de duas instituições consideradas modelares, o Hospício Pedro II (aberto em 1852) e o Hospício-Colônia de Juquery (inaugurado em 1898).
Com objetivo de ampliar os limites geográficos e cronológicos dessa investigação, os autores realizaram trabalho tendo como fontes primárias documentos oficiais referentes a cinco províncias brasileiras, São Paulo, Rio Grande do Sul, Maranhão, Pernambuco e Pará, editados entre 1846 e 1889.
Tais fontes, os relatórios dos presidentes (governadores) provinciais, contêm informações importantes relativas às justificativas invocadas para a criação dos primeiros espaços específicos destinados aos loucos, aos problemas ocorridos em sua instalação e manutenção, às idéias e representações correntes sobre o que se chamava então de “a mais triste das enfermidades”, a alienação mental, bem como estatísticas sobre o movimento dos hospícios e alguns dados sobre o perfil dos internos.
O artigo descreve como, nas cinco províncias, os padrões discursivos das autoridades eram similares: a alienação mental era considerada uma doença especial, e se apontava que o lugar dos loucos não era entre os demais doentes nas Santas Casas, mas tampouco nas cadeias, onde muitos se achavam confinados. Observou-se que os políticos e filantropos incorporaram rapidamente o discurso médico a respeito do tratamento ideal para a alienação mental, baseado no hospício francês, de Pinel e Esquirol. Este hospício ideal, na retórica dos presidentes provinciais, seria uma instituição que daria conta definitivamente do problema da loucura. Ao mesmo tempo, os mesmos registros descreveram aspectos concretos do cotidiano dos alienados reclusos nesses primeiros “hospícios exclusivos” (que não eram ainda instituições médicas): quantidade de internos crescente; vagas nunca suficientes; péssimas condições de vida dos internos, falta de espaço, de comida, de higiene, alta mortalidade; verbas escassas.
São apresentadas ainda informações sobre o movimento dos hospícios (entradas, altas, “curas”, mortes), sobre quem trabalhava neles (guardas, serventes, enfermeiros, médicos, religiosas, etc.) e sobre o perfil dos internos (sexo e condição social).
Da análise destas fontes, surge a evidencia da contradição entre o discurso oficial que enunciava um projeto de assistência moderno e a prática realmente efetivada com relação aos internos dos hospícios, pessoas pobres submetidas a uma reclusão forçada e a péssimas condições de vida, durante toda a segunda metade do século XIX.
Ana Maria Galdini Raimundo Oda
Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria
Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp
Campinas, SP, Brasil |