TEMA
DIFERENTES TIPOS DE PSICOTERAPIA E SUAS INDICAçõES NA PRáTICA PSIQUIáTRICA: DE ORIENTAçãO PSICANALíTICA, PSICODINâMICA, TERAPIA COGNITIVA, PSICODRAMáTICA
Tema organizado pelo Coordenador do Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria, José Toufic Thomé, após a solicitação de redação de textos pelos respectivos membros do Departamento que são especialistas em cada tipo de psicoterapia.
PSICOTERAPIA DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA EM PSIQUIATRIA
Pedro Gomes
Psiquiatra / Psicanalista
Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ)
Presidente da Associação Brasileira de Psicanálise (ABP)
1. Definição
A Psicoterapia de Orientação psicanalítica se fundamenta nos princípios teóricos da Psicanálise, a saber: inconsciente, repressão, transferência e resistência, mas se exerce de forma menos extensa com menor número de sessões semanais, geralmente uma ou duas e com ênfase menor na interpretação transferencial, mais no trabalho realizado no espaço extra-transferencial.
2. Objetivo
Visa-se uma organização parcial da estrutura psíquica no contexto de significativa mudança sintomática. Isto significa que o alívio, ou melhor, ainda, o desaparecimento dos sintomas é um critério de eficácia da Psicoterapia.
3. Indicações
a) Um conflito atual com uma situação ou circunstância da vida presente que desequilibrou o paciente, a tal ponto que se sente incapaz de resolvê-lo com os recursos habituais;
b) Um conflito neurótico derivado e relativamente independente dos conflitos infantis;
c) Presença de uma crise vital ou acidental em um transtorno da personalidade moderada;
d) Transtorno da personalidade de graves a moderados sem comportamento destrutivo ou anti-social;
e) Atrasos ou déficits de desenvolvimento em processos evolutivos definidos: aquisição de autonomia, estabelecimento de identidade pessoal de auto-imagem.
4. Motivações do paciente – Sine Qua Nom
a) Forte interesse em conhecer-se;
b) Reconhecimento da origem psicológica dos seus sintomas;
c) Presença do sofrimento significativo;
d) Tolerância à frustração;
e) Controle suficiente dos impulsos;
f) Teste de realidade preservada;
g) Capacidade de estabelecer uma aliança terapêutica;
h) Razoável força do ego e nível de inteligência.
5. Contra-indicações
a) Quadros Psicóticos agudos;
b) Quadros depressivos graves com tentativas de suicídio;
c) Alcoolismo Crônico ou Adição a drogas;
d) Quadros obsessivos compulsivos causadores de incapacitação crônica;
e) Quadros Borderline com atuações destrutivas;
f) Síndrome cerebral orgânica e deficiência mental;
g) Transtornos de caráter graves
Referências:
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2. Freud (1910) “Cinco Lições de Psicanálise” Ed. S.B. Vol. XI – Imago Editora.
3. Kernberg, Otto “Psicoterapia e Psicanálise” Boletim Científico da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro – SBPRJ – nº 5 – p 63-85, maio de 1999.
PSICOTERAPIA PSICODINÂMICA – UMA ABORDAGEM INTEGRADA
Erane Paladino e Ively Tarali
Membros do Departamento de Psicoterapia da ABP
Docentes do Departamento de Psicodinâmica do Instituto Sedes Sapientiae de S.P.
A psicoterapia ultrapassa o que pode ser descrito numa teoria. Está estruturada num encontro afetivo em que o conhecimento e capacidade de relacionamento do terapeuta são imprescindíveis para que mudanças psíquicas e psicológicas ocorram.
As novas situações que a contemporaneidade gera perante a realidade em seus valores e sua complexidade, exigem um novo modo de pensar a psiquiatria, a psicologia e seus métodos de trabalho. O modelo Psicodinâmico oferece esta possibilidade, pois se torna um importante instrumento de interlocução entre os diversos setores da sociedade, bem como colabora no estudo e compreensão das implicações psíquico-relacionais-sociais nos indivíduos.
A Psicoterapia Psicodinâmica é uma abordagem psiquiátrica, psicológica e sistêmica do Ser Humano, uma vez que este é compreendido em sua totalidade bio / psico / relacional. Ou seja, entendemos o Ser Humano como uma integração resultante da contínua presença e interferência de seu cérebro e de sua mente, e acreditamos que seu caráter e sua personalidade são frutos das interfaces destes sistemas com os relacionamentos importantes em seu desenvolvimento.
O postulado de um ser humano resultante da integração e interação destes três elementos resulta numa noção específica do adoecer que é um dos eixos centrais de nossa posição teórica e que fundamenta nossa técnica psicológica.
Este eixo central da psicodinâmica sustenta a afirmativa de que a doença é resultante do vínculo e se expressa também no vínculo.
A patologia é por nós entendida como uma doença DO e NO vínculo que o paciente mantém e sua existência representa ainda uma tentativa de equilíbrio homeostático.
Não há sofrimento psíquico desvinculado do relacionamento humano e a doença adquire seu sentido primeiro em sua expressão e comunicação no relacional. A doença é sempre uma forma de comunicação. Muitas vezes, a derradeira forma de comunicação encontrada por um psiquismo imerso em sofrimento.
O sofrimento psíquico, que tem sua origem nos primitivos modos de relação de objeto e de vínculos que o indivíduo viveu, em suas fantasias ou na realidade, e tendem a formatar-se como uma matriz dos inter-relacionamentos futuros. A isto denominamos “Padrão Vincular”. Este padrão que é expresso, comunicado e atuado no relacional, é recorrente, na atualidade, pela homeostase obtida com a repetição compulsiva com objetos complementares que reafirmam e a expectativa do padrão vincular.
Denominamos objetos complementares as pessoas que, em seus relacionamentos com o sujeito, geralmente reagem e respondem dentro do padrão vincular projetado e induzido pelo sujeito nesses relacionamentos.
A crença na noção de que o adoecer é fruto de dificuldades e problemas vividos nos primeiros vínculos do ser humanos com seus objetos significativos nos posiciona entre aqueles que acreditam que alguns potenciais genéticos podem tornar-se ou não realidade segundo experiências relacionais vividas nos relacionamentos significativos e que as experiências relacionais podem alterar ou criar novos caminhos sinápticos na mente humana confirmando ou alterando a potencialidade inscrita num determinado gen.
Este conceito é fundamental para a técnica da Psicoterapia Psicodinâmica e nossas hipóteses sobre suas ressonâncias na mente humana.
Pois se é no relacional que a mente se constitui, no relacional a mente adoece e a doença é em si vincular (doença do vínculo), é na proposta de uma nova forma de relacionamento que repousa nossa técnica principal, pois somente alterando o padrão vincular adoecido estabelecido pelo paciente podemos alterar seu comportamento que tem por finalidade encontrar na realidade a repetição, comprovação e cristalização daquele padrão primitivo adoecido.
Todas as psicoterapias que têm sua origem e funcionamentos nos conceitos psicanalíticos se propõem a oferecer um espaço para questionamento do relacional, mas a psicodinâmica vai além, pois tem sua proposta de tratamento solidamente apoiada na formulação de uma técnica que pretende oferecer ao paciente a oportunidade de novas vivências relacionais, a técnica da Vivência Relacional Reconstrutiva.
A Vivência Relacional Reconstrutiva tem por objetivo a introdução de uma nova maneira de responder às fantasias de padrão repetitivo do paciente e, com esta introdução do novo, causar uma desestabilização na crença do paciente. Seu grande instrumental é propiciar uma elaboração vivencial no relacional; um instrumental baseado na palavra comunicada PELO e NO relacional, porém compreendida como uma reedição de um padrão vincular.
O relacional é o leito da transferência e da contratransferência que dão significado às Vivências Relacionais Reconstrutivas.
As Vivências Relacionais Reconstrutivas inscrevem-se no espaço da memória implícita em que a experiência altera o comportamento. Mas, ocorrendo dentro de uma relação terapeuta paciente abre também o espaço para a possibilidade de um questionamento posterior sobre os modelos vinculares anteriormente estabelecidos e fundamentados em visões de eu e de outro incompletas e/ou incorretas. Embora sua ocorrência e efeito se processem no campo do implícito, a experiência decorrente pode ser resignificada também no campo do explícito em seus conteúdos da consciência – processo secundário.
As experiências de revivência e resignificação que o paciente vive em nosso consultório são ampliadas para novas experiências vividas fora do setting em que é utilizado o novo circuito cerebral, propiciando assim uma nova reestruturação emocional e relacional.
Sabemos que uma nova experiência cria, em um primeiro momento, um determinado circuito neuronal que é utilizado para decodificar, perceber e responder a esta experiência nova. As intervenções do psicoterapeuta psicodinâmico resignificam esta experiência dentro da relação terapêutica ao propiciar vivências que promoverão uma Vivência Relacional Reconstrutiva. Neste sentido a percepção que se tem da experiência é outra e exigirá, portanto, a criação de um outro circuito.
A psicoterapia desenvolve a plasticidade neural.
Nossas intervenções sempre se fundamentam na crença de que a situação atual, mesmo que determinada por um fator da realidade atual, somente transformou-se em problema (sintoma /transtorno) em função de uma estrutura de personalidade com angustias e conflitos anteriores mal elaborados que, face ao acréscimo sofrido pela situação atual, sofre uma descompensação no equilíbrio estrutural anteriormente estabelecido. Torna-se possível, não só o diagnóstico de sintomas, mas a compreensão dos possíveis conflitos subjacentes, quer no ambiente e suas contingências familiares, sociais, afetivas, profissionais, quer nas implicações intrapsíquicas envolvidas. Utiliza-se da transferência e da contratransferência (conceitos psicanalíticos) como caminho básico e estrutural para a obtenção e compreensão de material clínico na elaboração diagnóstica e para a compreensão das formas de vinculação do paciente.
O diagnóstico assim construído (e reconstruído) norteia a definição da estratégia de intervenção específica quanto a: necessidade de medicação, planejamento do trabalho, duração, freqüência de sessões, técnicas utilizadas, objetivos do processo, foco a ser trabalhado, bem como a devida avaliação da necessidade de um trabalho multi ou interdisciplinar.
A medicação, quando utilizada, é também compreendida em sua significação no relacionamento psicoterapêutico com o paciente.
Os conhecimentos e a técnica da psicodinâmica são aplicados com eficiência tanto em intervenções psicoterápicas [individual, casal, familiar ou grupal] quanto em intervenções em sociedade [instituições [governamentais ou não] e empresas.
Referências:
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23. WATZLAWICK, Beavin, J. H. Pragmática da Comunicação Humana .São Paulo.
INTRODUÇÃO À TERAPIA COGNITIVA
Cristiano Nabuco de Abreu
Psicólogo Clínico. Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade do Minho (Portugal). Mestre em Psicologia pela PUC/SP e SEI/IACT pela Universidade de York (Canadá). Pesquisador e Coordenador da Equipe de Psicologia do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
E-mail: nabuco@netpoint.com.br
Introdução
Ao longo dos últimos anos, a psicoterapia sofreu uma profunda alteração em seus fundamentos. Procurando acompanhar as evidentes transições históricas e as mudanças verificadas no campo das ciências humanas, alterações significativas foram feitas na prática clínica, levando consigo uma série de concepções mais antigas que envolviam o conceito de criação de significados (interpretação) e de mudança psicológica. Foi neste panorama que nasceram as práticas cognitivas de intervenção clínica.
Dessa forma, foi a partir da década de 60 que o esforço de vários pesquisadores, dentre eles Michael Mahoney, Aaron Beck e Albert Ellis, fez com que os primeiros passos fossem efetivamente dados através do que se chamou “Revolução Cognitiva”. Inicialmente, o foco de estudo de Mahoney se voltara aos processos cognitivos, enquanto o trabalho de Beck estava voltado para o tratamento da depressão. Já a publicação de Albert Ellis versava sobre razão e emoção em psicoterapia. Neste sentido, a histórica frase de Skinner, afirmando que “o cognitivismo levou a um lugar pior do que o lugar nenhum” (Mahoney, 1998, pág. 15), provou estar equivocada.
Com o passar do tempo, houve uma expansão vertiginosa das áreas de interesse e pesquisa ampliando as terapias cognitivas em mais de 25 tipos distintos ao contemplar distintas referências epistemológicas.
Terapia Cognitiva (Modelo Beck): Premissas
Atualmente a terapia cognitiva é descrita como uma abordagem terapêutica estruturada, diretiva, com metas claras e definidas, focalizada no presente e utilizada no tratamento dos mais diferentes distúrbios psicológicos. Seu objetivo principal é o de produzir mudanças nos pensamentos e nos sistemas de significados (crenças) dos clientes, com a finalidade de evocar uma transformação emocional e comportamental duradoura, e não apenas um decréscimo momentâneo dos sintomas.
Segundo Beck, não é a situação (ou o contexto) que determina o que as pessoas sentem, mas o modo como elas interpretam (e pensam) os fatos em uma dada situação. E, à medida que se depara com novas situações, o pensamento tentará extrair as padronizações percebidas de cada acontecimento, transformando as similaridades detectadas em padrões gerais de interpretação. Estes padrões coordenarão o processo de percepção e de atribuição de significados, processo também chamado de ‘rotulação’, constituindo-se em uma verdadeira rede de significados em nossa estrutura cognitiva. Conhecidos como esquemas ou crenças pela terapia cognitiva, essas estruturas serão os padrões orientadores da percepção e interpretação da experiência.
Disfunção e Psicopatologia
Na concepção cognitivista, a psicopatologia será sempre considerada o resultado de crenças excessivamente disfuncionais ou de pensamentos demasiadamente distorcidos que, em atividade, teriam a faculdade de influenciar o humor e o comportamento do indivíduo – enviesando sua percepção da realidade. Por isso, sua identificação e posterior modificação são elementos centrais para o tratamento, capazes de promover, segundo essa teoria, a redução dos sintomas.
Por exemplo, no modelo de Beck, tais crenças são divididas em básicas (ou centrais) e periféricas, as quais resultam de pressupostos que desenvolvemos a nosso respeito, a respeito do mundo e do futuro, compondo em seu estágio final a estrutura (cognitiva) de valores que favorecem a formação do que chamamos de experiência pessoal. Essas organizações de significado são necessárias para que se possa interpretar o mundo de uma maneira correta, pois auxiliam na previsão das atitudes e no sentido que damos às experiências de vida, garantindo assim o perfeito funcionamento cognitivo. Entretanto, algumas premissas advindas desses mesmos construtos podem, em função de alguma circunstância específica, tornar-se muito repetitivas e, portanto, conservarem-se pouco atualizadas - o que as induz a uma condição de contraprodução para o indivíduo. Operando, então, em um estado restritivo de atribuição de significados (por serem antigas), passam a atuar como uma camisa de força conceitual, gerando avaliações rígidas e absolutistas e criando um sentido distorcido das situações - o que as tornam extremamente resistentes à mudança, por isso classificadas como ‘disfuncionais’.
Nesse sentido, muitas vezes tais estruturas irracionais expressam-se inicialmente através de pensamentos negativos e, com o passar do tempo, são responsáveis pela ativação de emoções desadaptativas (conforme já discutido anteriormente). De caráter invasivo e imediato, os "pensamentos negativos automáticos" (PNA) têm o poder de transformar a interpretação das experiências de uma pessoa e, constituindo-se de uma poderosa lente explicativa, afetam significativamente seu comportamento, gerando os já conhecidos ‘sintomas’. Assim estabelece-se um verdadeiro efeito dominó. Quanto mais os sintomas desenvolvem-se, mais intensos os PNA se tornarão, em uma tentativa do organismo de procurar entender ou justificar as emoções presentes pouco compreendidas. Como efeito final, os pensamentos repetitivos vão gentilmente convidando os (novos) significados a se retirarem e, progressivamente, nossa estrutura cognitiva fica povoada pelas avaliações viciadas de significado, levando o indivíduo a comportar-se de maneira ilógica e irracional ou, segundo nosso ponto-de-vista, pouco atualizada, oferecendo condições para que os transtornos de personalidade se estabeleçam.
Um típico exemplo desse processo seria uma pessoa que possui uma crença central do tipo: “sou incapaz”. Isso gerará crenças intermediárias envolvendo condições de valor (incapacidade), como por exemplo, “se não entender algo de forma completa e perfeita… então sou burro”. Tal indivíduo, em uma situação qualquer, como em uma sala de aula, por exemplo, ao confrontar-se com o menor grau de dificuldade, será freqüentemente visitado por pensamentos automáticos (e disfuncionais por limitarem sua perspectiva de avaliação) do estilo: “isso é muito difícil para mim... eu jamais entenderei isso”. A presença de tal pensamento evocará uma reação emocional de tristeza (disparando reações fisiológicas de ansiedade e dor de estômago), gerando atitudes e comportamentos que culminarão na efetiva ‘incapacidade’ e na óbvia desistência do curso. Assim, quanto mais intensos forem os sintomas de desconforto em uma situação qualquer, maior será a incidência desses mesmos pensamentos automáticos disfuncionais, aumentando ainda mais a validade da crença central disfuncional (“Sou incapaz”), reforçando os sintomas uma vez mais e mantendo indefinidamente o círculo vicioso em atividade.
Concluindo, fica evidente com que intensidade a disfunção instala-se, nos modelos cognitivistas de Beck, a partir e em decorrência de algumas crenças centrais (ou até mesmo periféricas) que, não estando suficientemente flexíveis para esclarecer uma determinada situação, fomentam o aparecimento dos vieses interpretativos. A visão da personalidade de cada pessoa levará em conta a história evolutiva desses padrões do pensar, sentir e agir de cada um. Contudo, nos casos em que a disfunção é estabelecida, tal tendência ao ajuste cognitivo apresenta-se de maneira mais lenta do que a velocidade necessária para acompanhar a mudança no meio e, assim, serão instituídos verdadeiros ‘atrasos de interpretação’, ou seja, o indivíduo ainda se encontrará preso a certos valores antigos ou mesmo “irracionais”. Cognitivamente falando, as crenças disfuncionais deslocam as estruturas mais adaptativas (compostas por crenças mais razoáveis e adaptativas), prevalecendo nos atos finais de significação.
Temos aqui um dos campos mais férteis para a criação de transtornos de personalidade, uma vez que as crenças ou esquemas imperativos, tiranicamente, dominam o horizonte interpretativo, gerando distorções de entendimento e aprisionando o indivíduo em perspectivas ‘possíveis’, naquele momento, mas não suficientes para a compreensão.
Bibliografia
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14. Young, J. E. (1990). Cognitive therapy for personality disorders: A schema-focused approach. Sarasota, FL: Professional Resources Exchange.
A PSICOTERAPIA PSICODRAMÁTICA
GERALDO FRANCISCO DO AMARAL
Psiquiatra – Psicodramatista
Professor do Departamento Saúde Mental e Méd. Legal - FM-UFG
Professor Supervisor da Sociedade Goiana de Psicodrama e da Federação Brasileira de Psicodrama.
Mestre em Psiquiatria UFRJ
MIGUEL PEREZ NAVARRO
Médico – Psiquiatra – Psicodramatista
Professor Supervisor da Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP) e da Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP)
Professor do Curso de Pós-Graduação da parceria SOPSP-PUCSP – Formação em Psicodrama
O trabalho médico-psiquiátrico seja no ambulatório ou dentro do hospital, é amplo em vertentes que devem ser de conhecimento do profissional em suas possibilidades de abordagens. Literaturas específicas, fartamente à disposição, têm facilitado este conhecimento embora a prática torne-se limitada pela dificuldade do psiquiatra em formar-se também, dentro de uma orientação psicodinâmica.
No momento atual do desenvolvimento tecnológico proporcionado principalmente pelo acesso das pessoas ao computador, uma infinidade de descobertas e propostas têm englobado áreas aparentemente tão díspares como a emocional, a biológica e bioquímica, tornando-as afinal, unas na compreensão do ser humano.
No campo específico da psiquiatria, os avanços da psico-farmacologia, o desenvolvimento de novas abordagens psicopatológicas e a investigação cada vez mais detalhada da psicodinâmica, proporcionam um melhor entendimento e novas propostas terapêuticas que minimizem o sofrimento das pessoas. O psiquiatra tem atualmente um arsenal cada vez maior de psicofármacos para combater a grande maioria de sintomas fortemente atuantes em toda a psicopatologia e muitas vezes, em decorrência dessas novidades e aparentes facilidades, esquece-se da importância do tratamento psico-social e compreensão psicodinâmica que pode ser oferecida ao paciente e sua estrutura familiar.
Tratamento psico-social deve ser entendido aqui como aquele que usa procedimentos de psicoterapia individual, psicoterapia grupal, familiar, terapia ocupacional, assistência social e outros, sem deixar de relacionar a terapêutica da equipe profissional, referencialmente grupal. Importa ainda ressaltar que a reabilitação psico-social é um tratamento de longo prazo, acompanhamento contínuo e que necessita de diagnóstico.
Assim, dentro da atuação do psiquiatra, a psicoterapia deve ser um instrumento de utilização permanente, mesmo que utilizada dentro da consulta psiquiátrica. Adquirir conhecimentos de conceitos psicodinâmicos transforma o psiquiatra clínico em um cuidador diferenciado de seu paciente, ao dar-lhe uma condição diagnóstica integrativa entre a psicopatologia fenomenológica e a psicopatologia psicodinâmica. Do nosso ponto de vista, um instrumento para este alcance que tem se revelado eficiente é o da psicoterapia psicodramática. E por que a psicoterapia psicodramática?
Porquê é o método que trata CONSCIENTEMENTE as relações interpessoais e os conseqüentes problemas psíquicos e psicológicos de qualquer pessoa e de qualquer grupo humano, sob um enquadre psíquico- empírico. Este conceito, assim estabelecido por J. L. Moreno, criador do Psicodrama e da Psicoterapia de Grupo, tem norteado há décadas os procedimentos e atuações terapêuticas grupais e individuais tanto das psicoterapias tradicionais dentro dos consultórios, quanto das atividades grupais institucionais. E, como sabemos, o homem em sua plenitude, é um ser grupal.
O psicodrama e a psicoterapia psicodramática, por conseguinte, têm como base conceitos teóricos evolutivamente muito bem consolidados, principalmente se levarmos em conta a existência na bibliografia brasileira de mais de 120 livros a respeito e incontáveis referências na bibliografia mundial. No Brasil tem sido aplicado em programas governamentais e privados, gerando benefícios a indivíduos e coletividade de forma significativa, ao longo dos últimos anos.
Como citação teórica sumária, o tripé em que se alicerça o psicodrama é: a Teoria de Papéis onde se estuda de maneira infindável a relação humana, baseada nos papéis e contra-papéis, que a marcam: pai-filho, irmão-irmã, avô-neto, professor-aluno, comprador-vendedor, médico-paciente, psiquiatra-cliente; o conceito de Tele-transferência onde 2 pessoas em relação podem se compreender porque possuem a capacidade de se entender (TELE), ou não a possuem, porque elementos de sua história fazem-no entender como outra pessoa (TRANSFERÊNCIA) e o conceito de Criatividade-Espontaneidade, onde o indivíduo dentro de sua conserva cultural precisa cotidianamente de estar livre para criar e se auto determinar.
Moreno propõe então que os profissionais de saúde mental estejam prontos para atender a demanda dos grupos que os procuram. Foi assim que começou suas descobertas nos anos 1913-1914, trabalhando com grupos de prostitutas, depois com menores de rua em Viena e refugiados de guerra no Tirol, com isso desenvolvendo seus conceitos extensos e profundos, mas extremamente práticos.
Moreno propunha que seus clientes dramatizassem (não apenas representassem) acontecimentos de suas vidas, ao invés de apenas falar deles e assim, que tomassem e fizessem os papéis de seus interlocutores com todos os conteúdos dos acontecimentos deles, interlocutores, proporcionando aos pacientes uma vivência nunca antes experimentada, e com isto conseguir uma nova, diferente compreensão do conflito. Como isso era realizado em grupo, todos poderiam ter vivências assemelhadas ou diferentes, proporcionando inúmeras catarses dos/nos participantes.
Em um relato de caso, Moreno conta que houve ocasião em que um cliente dramatizou seu sofrimento e só reapareceu 2 anos depois, porque, conforme o próprio, estava acabando o efeito do ato terapêutico anterior.
É importante ressaltar, que tudo isto que está sendo descrito não acontece rapidamente, e sem adequado treinamento não se pode completar a ajuda ao paciente, já que inúmeras técnicas devem ser treinadas por longo tempo.
É importante para os psiquiatras atuantes no nosso país, que sempre será muito útil poder reunir seus pacientes com psicopatologias que se assemelham em grupos específicos e ajuda-los a trocar suas experiências distorcidas – seja trocando de papel com o outro, seja ouvindo as verdades que cada um traz de si e da sua doença.
Em resumo, esta é a grande possibilidade do psiquiatra “lá da ponta” beneficiar seu paciente e beneficiar-se – compreende-lo dentro do seu papel de paciente, compreender (atuar em) seu grupo de trabalho dentro de vertente de que o encontro terapêutico é ocorrência necessária entre profissionais-profissionais e profissionais-pacientes, recriar a todo instante formas diferentes de atuação, diminuir as situações transferênciais a partir do enfrentamento das verdades de cada agrupamento em que se insere. Mesmo porque o trabalho grupal é extremamente gratificante para toda uma equipe trans-disciplinar. E ao psiquiatra, compete colaborar e contribuir com seus conhecimentos levando suas informações, recebendo outras e com isso fazendo um trabalho dignificante.
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