Clipping do dia: 27/10/2009
Data de veiculação:
27/10/2009
Crítica a um livro da psiquiatra Ana Beatriz
Por Marcelo Caixeta
Veículo: Diário da Manhã
Seção: Opinião
Data: 27/10/2009
Estado: GO
A psiquiatra carioca Ana Beatriz escreveu vários livros sobre psiquiatria que viraram best-sellers (Mentes Inquietas, Mentes Ansiosas, Mentes Obsessivas etc.) e que fizeram um favor muito grande para a psiquiatria nacional: na ausência completa de campanhas educativas de nossas associações, tem sido ela que vem divulgando os problemas psiquiátricos para a população mais cultivada. Um de seus livros, no entanto, a meu ver, traz uma mensagem questionável : em Mentes Perigosas, traz a ideia de que o “psicopata mora ao lado” e que a “doença da maldade” do outro pode nos fazer, a todos, de vítimas da violência.
O que está aqui em discussão é o apregoado conceito de “psicopata”, alguém que se compraz no mal, vive no mal e aproveita-se das pessoas. Tal conceito aplica-se, ao meu ver, a muitas pessoas “normais”, políticos, por exemplo, cuja característica profissional principal é a de se comprazer e utilizar-se da mentira, do subterfúgio, dos incautos, para auferir ganhos pessoais, sejam financeiros, de poder ou sexuais (vide, por exemplo, a bela Mônica e o “caso Calheiros”). Seriam esses políticos, então, “anormais”? Do ponto de vista psiquiátrico, descordo; na verdade, sua inteligência privilegiada, sua energia privilegiada, seu carisma privilegiado, tudo isso os faz, para mim, seres mais “perfeitos” do que as pessoas normais. Não são, portanto, doentes. Por outro lado, os doentes psiquiátricos que têm problemas morais são aqueles que têm uma forte impulsividade, não planejam, tomam os pés pelas mãos, são facilmente pegos na mentira ou no crime, hiperativos, drogados, com uma sexualidade sem crítica, com falta de juízo social. Em decorrência disto, nunca conseguem amealhar patrimônios, seja político, seja econômico. São indivíduos cujo primitivismo pulsional, instintual, egoico, os fazem mais próximos do determinismo animal do que do livre-arbítrio humano. Quanto mais determinado biologicamente é o indivíduo, menos se pode dizer que ele é uma pessoa má, pois tais indivíduos não são maus voluntariamente. Mau voluntariamente é aquele que mata para ficar com uma herança, aquele que rouba da comunidade, tira merenda escolar, aproveita-se da disponibilidade sexual de adolescentes fragilizados etc. Em síntese, é aquele que sabe e que pode decidir quando e como aplicará a maldade; a quem não pode decidir quando ser ou não ser mau, não se pode agregar o epíteto de “mau”. Dou um exemplo para ficar mais claro: é muito comum a mãe de verdadeiros “psicopatas” (antissociais e hiperativos com problemas de conduta) dizerem que, ao lado do egoísmo (por exemplo, roubar dos pais para comprar drogas) eles são muito altruístas, dão as roupas do corpo para quem pedir, têm dó, tiram da própria comida para dar para o outro. Ou seja, do mesmo modo que são “maus”, são também “bons”, justamente porque, no reino animal, a destruição convive ao lado do altruísmo. Portanto, são seres muito determinados biologicamente, e que não “escolhem” ser maus, ou fazer o mal.
O que “escolhe” fazer o mal – cujo protótipo são determinados políticos – é aquele que pensa, esconde, manipula, escolhe o momento certo, disfarça, escapa. É aquele que “pode” escolher agir daquele modo, não é alguém que é mais ou menos determinado biologicamente (digo mais ou menos porque também ninguém pode dizer que seja completamente determinado para fazer o mal, mesmo o mais primitivo biologicamente dos seres). Os que “escolhem” fazer o mal partem do pressuposto maquiavélico de que são mais poderosos, ricos, inteligentes, carismáticos etc., do que o resto da população e que, portanto, merecem mais que os outros (melhores salários, por exemplo), nem que para isto tenham de sacrificar a imensa maioria dos “anônimos outros”. São tais indivíduos que “moram ao nosso lado” e que foram confundidos pela psiquiatra Ana Beatriz com os “psicopatas doentes”. Tais indivíduos que “moram ao nosso lado” são os mais simpáticos possíveis, carismáticos, e , portanto, não têm nada de “doentes”, não são impulsivos, imprevisíveis, inquietos, instáveis, agressivos, não-racionais, não-planejados, acríticos etc.
Erigir a “maldade” enquanto doença é um erro filosófico: a verdadeira maldade, que é aquela deliberada, calculada, só pode acontecer dentro da saúde mental. Com isto, não estou querendo dizer que um doente mental não possa causar o mal; ele o pode e, com certa frequência, o faz (na doença mental a institucionalidade pode ficar “solta”, sem peias, sem crítica, e é esta que realiza a “maldade”, seja na forma agressiva, seja na forma libidinal, seja na forma egoística). Só que esta maldade não é a característica distintiva da doença, não é uma característica diagnóstica, justamente porque o conceito de “maldade” – que é um conceito da filosofia moral, portanto, mais antigo do que a própria psiquiatria – não pode ser assimilado pela Medicina, sem sérios riscos.
O conceito da “maldade” é um conceito filosófico e jurídico, não pode ser misturado com critérios de patologia, senão a confusão se instala em todos os planos.
Marcelo Caixeta é médico, especialista em Psiquiatria Forense pela Associação Brasileira de Psiquiatria