Clipping do dia: 29/05/2009
Data de veiculação:
29/05/2009
Hora de contra-atacar o crack
Psiquiatra observa que faltam leitos para tratar pacientes que já passaram pelo atendimento de emergência e necessitam de cuidados mais prolongados
Veículo: Zero Hora
Seção: Viver
Data: 29/05/2009
Estado: RS
A explosão do consumo de crack no Rio Grande do Sul, que dobrou o número de vítimas em apenas três anos, é agravada por deficiências em áreas como a proteção das fronteiras, a repressão interna ao tráfico e o atendimento clínico aos usuários. Autoridades e especialistas reunidos ontem no Painel RBS para discutir o combate à droga que assola o Estado reconheceram a incapacidade do poder público em fazer frente à epidemia de forma isolada e ressaltaram a importância da prevenção e da mobilização de toda a sociedade para barrar seu avanço.
O debate promovido ontem à tarde na sede do Grupo RBS, em Porto Alegre, marcou o início de uma campanha institucional da empresa, criada pela Agência Matriz, que tem como objetivo ampliar o grau de conhecimento sobre o problema e promover ações de prevenção ao uso do crack, estimulando a integração de diversos setores da sociedade. A iniciativa inclui anúncios de TV, rádio, jornal e internet, além da produção de reportagens sobre o tema.
– Tratar o crack sob a ótica da prevenção é o nosso grande foco. O objetivo é criar uma grande mobilização no sentido de erradicar o consumo de crack no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. É uma visão ousada, mas possível – afirmou o presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, ao dar início ao evento.
Uma das principais conclusões dos participantes é de que a droga surgida há pouco mais de uma década no Estado ainda desorienta governantes e especialistas – mas pode ser enfrentada. A vigilância nas fronteiras, por onde entra a matéria-prima tóxica utilizada no Rio Grande do Sul, é uma das barreiras possíveis. O ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que o governo federal vem procurando reforçar a estrutura da Polícia Federal, mas admitiu que não há como tornar o país imune ao tráfico internacional:
– Temos em torno de 12 mil quilômetros de fronteira. É ilusão que teremos controle total das fronteiras em um país como o Brasil. A barreira contra a entrada da droga nas comunidades tem de ser feita pelas próprias comunidades – sustentou o ministro, participando do evento desde Brasília.
Debatedores concluíram que é possível virar jogo contra o vício
Um complicador apontado pelos participantes é a grande atração exercida pelo crack como fonte de lucro para os pequenos traficantes, já que o grau de dependência despertado nos usuários é muito alto. O chefe de Polícia do Estado, João Paulo Martins, também reconheceu a dificuldade em reprimir essa rede criminosa:
– Acho que a gente faz o possível. Temos plena consciência de que, mesmo fazendo o possível, estamos muito aquém do que é necessário para combater o tráfico de forma geral – afirmou.
Martins apontou ainda que a tolerância da legislação ao não prever mais a prisão do dependente acabaria estimulando o tráfico – em um ponto que gerou controvérsia entre os debatedores.
– Há uma dificuldade muito grande de se fazer a apreensão (da droga) porque o usuário não está mais sujeito à prisão. Ser favorável ao consumo também significa ser favorável ao tráfico, porque não existe consumo sem tráfico – argumentou.
Para o diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro, Luiz Coronel, livrar o dependente da prisão é uma medida adotada em muitos países desenvolvidos. Em vez de punir com cadeia, a tendência é tratar o paciente como vítima da droga e encaminhá-lo para tratamento.
– A experiência no Primeiro Mundo, e crescente, trata o dependente de drogas em conflito com a lei prioritariamente, quando diagnosticado, como doente, e não criminalizando, evitando o sistema prisional – informou.
Segundo Coronel, uma pesquisa realizada com vítimas do crack menores de 18 anos no Estado revelou que 40% não moram com o pai ou a mãe. O psiquiatra reforçou ainda a importância de que o usuário seja internado – mesmo que à força – para escapar do vício. Mas o psiquiatra do Hospital de Clínicas Flavio Pechansky observou que faltam leitos para tratar pacientes que já passaram pelo atendimento de emergência e necessitam de cuidados mais prolongados. Também citou que os especialistas ainda estudam a forma ideal de combater a dependência:
– Não sabemos ainda o melhor jeito de tratar o crack.
Todos os debatedores, porém, ressaltaram que é possível virar o jogo contra o vício. Alternativas como policiamento comunitário, reforço na prevenção por meio das equipes do Programa de Saúde da Família (PSF), melhora no atendimento clínico, uma maior integração entre setores policiais, sociais e de saúde, e campanhas de conscientização como a deflagrada ontem pelo Grupo RBS foram apontadas como possíveis armas para esfacelar as pedras que atormentam cerca de 50 mil gaúchos atualmente.