Ensaios

A escrita de Freud

Data: 29/04/2008

Mauro Cordeiro Andrade* Apesar da difusão mundial da obra de Freud através da versão inglesa ? a Standard Edition of the psycological works of Sigmund Freud ? estudos recentes, com manuscritos e cartas, têm revelado outro enorme acervo de documentos escritos ? região até há pouco tempo insuspeita de sua escrita ? cujas dimensões seriam, pelo menos, similares ao da obra conhecida. Nesse conjunto ressaltam as cartas, que iniciaram-se na adolescência do autor, e revelam um sujeito, desde muito cedo, tomado intensamente pela escrita. O volume das cartas de Sigmund Freud para Eduard Silberstein (1871-1881) (FREUD, 1995), traz a pitoresca troca de cartas entre adolescentes de farta cultura, autodidatas do espanhol e outras línguas, e seu poder de nos interrogar, a partir de ampla intertextualidade clássica e moderna. Leitores vorazes do Quixote e de outras obras de Cervantes, os dois amigos, durante dez anos, alimentaram a mitologia da “Academia Espanhola”, de apenas dois membros: eles mesmos. Nela escreveram, quase diariamente, suas vivências, sentimentos, olhares sobre o mundo e as pessoas, crítica da literatura e de outras artes, acontecimentos, enfim, sua experiência, nos vários sentidos que esta palavra retém entre nós, e a partir dos cognatos da língua alemã, que ampliam sobremaneira sua conotação, quando vertidos ao português ? Erfahrung (experiência), Erlebnis (vivência), Ereignis (acontecimento). Além dessas e de outras cartas, a produção de artigos científicos, de pequenas monografias, de traduções (Freud traduziu Stuart Mill do inglês; Charcot e Bernhein do francês), de resenhas de livros, enfim, de múltiplos e variados escritos sempre ocupou o estudante e o jovem médico, e intensificou-se progressivamente com as descobertas que inventaram a psicanálise. A publicação, no início dos anos 50, da primeira correspondência de Freud que veio a público ? as cartas a Fliess ?, cheia de manuscritos teóricos ? os conhecidos “rascunhos” ? provocou o maior impacto no mundo psicanalítico após a morte de Freud, ocorrida em setembro de 1939. Em uma carta da adolescência, Freud comenta com outro amigo ? Emil Fluss ? seu excelente resultado na prova de alemão da conclusão dos estudos do ensino médio, aproveitando as palavras de seu professor, que dizia possuir ele, Sigmund, um estilo forte e próprio. O jovem Sigmund, em tom de pilhéria, aconselha a seu amigo guardar aquelas cartas, pois, ele estava correspondendo-se com “um estilista da língua alemã” (FREUD, 1982, p.14). Às cartas da juventude ? o título da edição francesa traz esta conotação mais ampla, e contém as cartas dirigidas a E. Silberstein e a E. Fluss ? seguiram-se aquelas que, durante quatro anos (1882-1886), narram grande parte de sua vida durante o noivado com Martha Bernays. Entre 1887 e 1902 são escritas as cartas a Wilhelm Fliess. Durante o período das cartas a Fliess (1878-1902), Freud passa da hipnose à talking cure, da teoria da sedução à intuição sobre a fantasia, e atravessa algumas das mais contundentes experiências de um homem ? casamento, nascimento dos filhos, morte de seu pai, intensa amizade, troca de idéias e especulações teóricas científicas com um colega médico. Tudo isso é escrito. Grande parte é relegado ao esquecimento, outra parte é destruída e alguns livros fundadores vêm à luz: Estudos sobre a histeria (FREUD, ESB, II) e Interpretação dos sonhos (FREUD, ESB, IV E V). Desde o início de suas descobertas e do grande embate a que se viu confrontado com seus pares nas sociedades médicas e científicas, Freud foi muito cético e reticente ao reconhecimento advindo do campo das letras. Expressões como “ficção teórica”, “romance teórico”, “conto de fadas natalino” e outras, são velhas conhecidas dos primeiros tempos da obra freudiana. Quando iniciou seus relatos de casos, antes mesmo dos Estudos sobre a histeria, várias outras narrativas se lhe impuseram, progressivamente ? como pequenos fragmentos de anamneses, relatos e análises de sonhos, e enfim, da experiência com as palavras, suas e dos outros, na Psicopatologia da vida cotidiana (FREUD, ESB, VI) e no Livro dos chistes (FREUD, ESB, VIII). O reconhecimento do valor literário de seus escritos antecedeu a aprovação e aceitação científicas, e, por esta razão, Freud mesmo foi o primeiro a discordar disso. Muitos anos se passaram, consumidos na luta atroz do criador em defesa da criatura: a historiografia, assim como as biografias, registra os variados acontecimentos em torno da reunião e da dissensão, de adeptos e de opositores, da nova práxis clínica e de seu edifício teórico. Em 1930, Freud recebe o maior prêmio literário de língua alemã: o prêmio Goethe, da cidade de Frankfurt sobre o Meno. No mesmo ano, é publicado o até então mais abrangente e profundo estudo sobre as qualidades da prosa freudiana, por um professor de literatura de Zurique, Walter Muschg: “Freud als Schrifsteller” (“Freud como escritor”), cuja tradução francesa (“Freud Écrivain”) pode ser encontrada no número 5 da revista La psychanalyse, de 1959, editada em Paris. Outro estudo de importância sobre o tema é o livro de Patrick Mahony, cujo título é o mesmo do artigo de Muschg: Freud as writer, com tradução brasileira pela Imago (MAHONY, 1992). Nesse livro encontramos várias outras referências de importância nesse campo, e uma ênfase que nos chamou a atenção: estudar a escrita de Freud equivale a estudar os recursos e performances estilísticos de que o escritor demonstra fazer uso com maestria. Ao delimitarmos não as características ou outros atributos de estilo mas a experiência que torna possível a escrita, encontramos, quanto a Freud, um vasto e pouco pesquisado campo de estudo, tendo como foco, precisamente, sua experiência da escrita. Explorando o campo semântico de experiência, vamos nos deparar com a acumulação de conhecimentos, o saber que advém das vivências, os atravessamentos que os acontecimentos impõem a todo aquele que se encontre em posição de enfrentar o desconhecido, e a superação de limites, inclusive de riscos. Uma perífrase para experiência ? respeitando sua etimologia ? pode ser: uma travessia de risco. Para Freud, sabemos, a face clínica da experiência ? o trabalho com pacientes ? é fundamental em todo o seu percurso. Mas a importância e a força da escrita, que escreve o acontecimento que ele vive, sempre com perplexidade ? seja a descoberta do mundo, nas vivências precoces da adolescência; seja a revivescência presente nos relatos que as histéricas faziam, e nos quais ele próprio entrava, já que as estimulava, sendo, ao mesmo tempo, o espectador; seja a análise de seus próprios sintomas e sonhos ? e, que ao escrever-se, demarca limites a serem sempre franqueados; que avança na especulação, põe freqüentemente em dúvida seu autor, mas não permite que ele descanse ou recue; tudo isso ? a força da escrita ? aponta um lugar e uma função limites para Freud, na invenção para sempre associada a seu nome. Um pensamento que lança luz sobre a complexidade destas questões é o de Maurice Blanchot, particularmente em seus livros O espaço literário (BLANCHOT, 1987), A conversa infinita: a experiência limite (BLANCHOT, 2007), e A parte do fogo (BLANCHOT, 1997) Neles, o pensador e escritor francês perscruta alguns autores que, desde Mallarmé, não podem escapar à inexorável experiência de mise-en-abîme, já que são arrastados, tragados, pela exigência de escrever. Ao dobrar-se sobre si mesma, o que a escrita encontra é a impossibilidade de sair do espaço que ela mesma delimita, o espaço literário. A essência da linguagem afirma que a palavra é a morte da coisa. No entanto, a materialidade das palavras ? e, acentuadamente, a da palavra escrita ? permite afirmar que ela também, a palavra, é coisa. As obras escritas realizam o lampejo do desvio da insensata tautologia ? “a coisa é a morte da coisa” ?, trabalhando, exatamente, em seus limites (os limites da linguagem). É isso que permite a Blanchot escrever: “Mas a linguagem é a vida que carrega a morte e nela se mantém” (BLANCHOT, 1997, p.323). Enunciação com outra grave conseqüência: “não mais a morte, mas a impossibilidade de morrer” (BLANCHOT, 1997, p.324). A escrita, e mais, a experiência que a permite, tornam-se, ao mesmo tempo, impossibilidade e incessância. Aquilo que não cessa de ser impossível, nem tampouco de continuar. A experiência é limite, porque sempre à prova de sua impossibilidade. Assim, só pode ser, ao mesmo tempo, no limite. Um exemplo maior, de alguns dos movimentos da escrita de Freud, é aquele, do retorno de um manuscrito abandonado pelo escritor ao corpus da obra: o Projeto para uma psicologia científica (FREUD, ESB, I) Cem páginas manuscritas em febril atividade, em apenas duas semanas, e com o mais conciso e complexo raciocínio sobre o funcionamento de um aparelho mental até então jamais concebido, de repente abandonado e nunca mais relembrado pelo escritor. No entanto, suas principais teses alimentarão sua escrita até o fim de sua vida. A edição crítica da obra que o incorporou ? recordamos que o Projeto veio a público em 1950, juntamente com as cartas e os “rascunhos” dirigidos a Wilhelm Fliess entre os anos 1878 e 1902 ? faz dezenas de remissões a esse escrito emblemático, nos mais diversos textos, dos mais de seus vinte volumes. Trata-se, pois, de um escrito que aparece, desaparece, reaparece. Aponta, desvia-se, retoma caminhos, abandona-os, retoma-os. Outro exemplo é o enigmático texto Além do princípio do prazer, que marcou, com a mais profunda incisão, um caminho tortuoso, sempre crítico ? no sentido de uma crise incessante ?, da práxis clínica que a psicanálise permite. Nele, o autor avança diversas vezes rumo ao limiar do que pretende dizer, mas esbarra em algo de improvável, sob o manto do impossível. A escrita o conduz sempre além do ponto onde, ela mesma, parece riscar o limite, mas sempre pedindo uma palavra além. Por fim, a “especulação” ? termo que utiliza quase como sinônimo de teorização e de “metapsicologia” ? ela também experiência, o conduz a escrever a “pulsão de morte” e sua articulação: “o objetivo de toda a vida é a morte” (FREUD, ESB, XVIII, p.56). A experiência clínica converge aqui com a experiência da escrita. Ambas vividas no limite, como limite: travessias de risco. Ambas escrevendo, sem cessar, para subtrair vida e morte a qualquer sentença derrisória ou conciliatória. Referências Bibliográficas: BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita: a experiência limite. Trad. João Moura Jr.. São Paulo: Escuta, 2007. BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. FREUD, Sigmund. As cartas de Sigmund Freud para Eduard Silberstein: 1871-1881. (Org. Walter Böehlich) Trad. Flávio Meurer. Rio de Janeiro: Imago, 1995. FREUD, Sigmund. Correspondência de amor e outras cartas: 1873-1939. Trad. Agenor Soares Santos. Ed. preparada por Ernst L. Freud. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (citado como FREUD, ESB, seguido do volume em romanos, e página em arábicos). MAHONY, Patrick. Freud como escritor. Trad. Elizabeth Saporiti. Rio de Janeiro: Imago, 1992. * Psiquiatra do Instituo Raul Soares (FHEMIG); mestre em Teoria da Literatura, pela Faculdade de Letras da UFMG; doutor em Literatura Comparada pela FALE-UFMG; psicanalista do Aleph - Escola de Psicanálise; diretor da Cas’a’screver

 

» Voltar

 

 

Direitos Autorais | Privacidade
Copyright © 2005-2008 ABP
Produzido por Assessora