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Entrevista
Dividir experiências
e minimizar o estigma social
O Diretor
do Programa de Saúde do Médico da Associação
Médica de Ontário, no Canadá, Dr. I.
Michael Kaufmann, convidado para ministrar o Curso Saúde
do Médico promovido pelo Departamento de Dependência
Química da Associação Brasileira de
Psiquiatria – ABP, pela Associação Psiquiátrica
do Estado do Rio de Janeiro - APERJ e o Instituto de Psiquiatria
da UFRJ – IPUB, nos dias 15 e 16 de abril, concede
entrevista para a assessoria de imprensa da ABP e ressalta
a importância desta parceira.
“A
ironia é que a profissão é formada
por seres humanos que são inerentemente passíveis
de erros, médicos ou não. Aprendemos a servir
nossos pacientes com dedicação e compaixão,
que nem sempre oferecemos a nós mesmos ou a nossos
colegas de profissão.
Precisamos encarar esse problema. Esse tipo de vergonha
e estigma é diretamente responsável por sofrimentos,
talvez até por mortes desnecessárias de médicos”.
ABP
- Em que consiste e de que forma funciona o Programa de
Saúde do Médico da Associação
Médica de Ontário? O ingresso é voluntário?
MK
- Nosso Programa de Saúde do Médico também
é conhecido como Programa de Saúde de Profissionais
Clínicos, pois, além de atendermos médicos
em Ontário, atendemos também veterinários
e farmacêuticos. Foi criado pela Associação
Médica de Ontário em 1995, primeiramente com
o intuito de ajudar médicos com problemas de uso
excessivo de álcool ou drogas em geral, mas agora
atende profissionais com todos os tipos de problemas pessoais.
Nossa equipe é composta por cinco funcionários
da área clínica e mais cinco da área
administrativa. Em conjunto oferecemos informações
e conselhos, intervenções cirúrgicas,
avaliações e recomendações médicas,
além de acompanhamento em longo prazo, gerenciamento
e proteção em termos legais aos profissionais
convalescentes, principalmente aqueles com problemas psiquiátricos
ou de dependência de drogas, ou ambos. Nós
não temos como propósito trabalhar com esses
problemas em primeira instância. Em vez disso, encaminhamos
esses médicos a diversos centros de tratamento mais
específicos em Ontário.
A maioria dos pacientes procura por ajuda em nosso programa
voluntariamente. Outros, cerca de 40%, são encaminhados
por família, amigos, autoridades governamentais,
entre outros.
ABP - Que
tipos de doenças são as mais comuns nos atendimentos
realizados?
MK
- Nos últimos dez anos houve mais de 1.500 pacientes
procurando por ajuda no Programa de Saúde do Médico.
O maior grupo de pacientes está relacionado ao uso
excessivo de drogas (36%); em seguida vem os com problemas
psiquiátricos – em sua maioria com problemas
de ansiedade e humor (20%), seguido de estresse acentuado
e desordem emocional (18%); problemas conjugais e familiares
vem logo depois (13%); a seguir, variações
de comportamento (5%). E, por fim, uma variedade de desordens
em menores proporções, que incluem problemas
sexuais, limitações, vício em jogatinas,
degeneração física e mental, entre
outros.
ABP - No que
se refere às especialidades médicas existe
alguma de maior risco?
MK
- Se analisarmos as especialidades dos médicos que
nos procuram e compararmos a relação dessas
especialidades às suas proporções na
população médica em geral, constatamos
que não há nenhuma diferença significante.
Então, na maioria dos casos, médicos nos procuram
proporcionalmente à quantidade de suas próprias
especialidades. Há algumas exceções.
Podemos observar mais anestesistas com problemas de uso
excessivo de drogas do que poderíamos esperar de
acordo com sua proporção na população
(4,2% para 6,4%) e muito mais psiquiatras relacionados ao
uso de drogas do que se poderia supor (8,4% para 15%). Essas
duas especialidades também estão excessivamente
representadas em nosso meio no que se refere a problemas
psiquiátricos (6,1% em anestesia e 12% em psiquiatria).
Portanto, podemos concluir que essas duas especialidades
parecem ser as de maior riscos.
Com respeito à psiquiatria, segundo minha experiência,
psiquiatras não reconhecem facilmente esse risco,
particularmente se comparados aos anestesistas. Pude observar
que psiquiatras são menos plausíveis em despender
tempo em estudos sobre esses problemas em suas próprias
especialidades do que os anestesistas. Alguns psiquiatras
comentam que em programas como o meu, encontram-se mais
psiquiatras do que qualquer outra especialidade, porque
psiquiatras têm maior percepção acerca
da natureza desses problemas quando eles ocorrem neles mesmos
e são mais suscetíveis em pedir por ajuda
do que outros. Há um pouco de verdade nisso e posso
acrescentar que nem todos programas de apoio a médicos
de outros lugares possuem a mesma representação
excessiva de psiquiatras em seus meios.
Pode-se ainda fazer uma questão controversa, porém
realista: Será possível que médicos
que escolheram a especialidade de psiquiatria o fizeram
porque já apresentaram problemas de ordem psiquiátrica
ou distúrbios emocionais (solucionados ou não)?
Ou ainda, podem possuir familiares (conseqüentemente
pré-disposição e história pessoal)
que já tiveram problemas psiquiátricos, sendo
assim, um estímulo para a escolha dessa especialidade?
Que eu saiba há poucas pesquisas realizadas nessa
área.
ABP - Considerando
o grande estigma social que ainda envolve o uso de álcool
e outras drogas, principalmente entre médicos, poderia
nos falar um pouco mais sobre como se dá esse comprometimento
na classe médica?
MK
- Infelizmente há um estigma social relacionado a
esses problemas, na verdade, a todos os problemas de saúde
mental (entre outros) para a população em
geral e, principalmente, médicos. Acredito que muitas
pessoas pensam que sofrer qualquer um desses problemas é
sinal de fraqueza ou deficiência moral ou psicológica.
Ainda hoje, mesmo entre médicos que deveriam entender
melhor sobre esse assunto, a idéia de que essas deficiências
sejam uma doença, como qualquer outra doença
física, não é amplamente aceita. Acredita-se
então que o doente causa seu próprio problema
e, mesmo assim, está errado. Eles “deveriam
estar mais bem informados”.
Em geral, a cultura médica ocidental persiste num
fundamento sobre o mito da força pessoal do corpo
e do caráter, na necessidade compulsiva de se trabalhar
muito, na auto-rejeição, no auto-sacrifício
como virtude e invulnerabilidade em geral. Portanto para
muitos, ceder a esses problemas, pode ser visto, no mínimo,
como antiprofissional e, no máximo, como fracasso
pessoal desprezível. Essa é a razão
pela qual muitos médicos se envergonham e relacionam
estigma a esses problemas. Conseqüentemente, hesitam
em procurar ajuda.
A ironia é que a profissão é formada
por seres humanos que são inerentemente passíveis
de erros, médicos ou não. Aprendemos a servir
nossos pacientes com dedicação e compaixão,
que nem sempre oferecemos a nós mesmos ou a nossos
colegas de profissão.
Precisamos encarar esse problema. Esse tipo de vergonha
e estigma é diretamente responsável por sofrimentos,
talvez até por mortes desnecessárias de médicos.
ABP - Quais
as drogas de maior prevalência nos pacientes atendidos
em seu programa?
MK
- Álcool (cerca de 60%). É a mais usada em
todo lugar que eu conheço. Em seguida, o opioid (potente
anestésico) é a droga de maior índice
(cerca de 35%). E, então, vem o cannabis, cocaína,
entre outras.
ABP - Relativamente
às drogas lícitas sabemos que o tabaco é
uma das drogas de maior prejuízo para a sociedade,
relativamente à Política do Canadá
quanto ao tabaco existe uma legislação específica
em relação a hospitais e outros locais de
cuidados à saúde quanto à restrição
de uso? Pode-se fumar, por exemplo, em hospitais psiquiátricos?
MK
- No Canadá, a legislação para controle
do tabaco é uma questão local, mais restrita.
Há uma legislação em Ontário
proibindo cigarro em hospitais. Hoje em dia, só se
é possível fumar em áreas restritas
designadas para isso, e que já está sendo
extinto. Está se tornando comum andar por hospitais
e encontrar pessoas fumando do lado de fora. Alguns hospitais
estão proibindo também fumar no hall de entrada.
As coisas estão mudando por aqui. Segundo a nova
legislação de Ontário, o Decreto Proibido
Fumar de Ontário, que será assinado no final
de junho, fechará todas as instalações
que possuem áreas destinadas a fumantes. Portanto
em todos os hospitais, incluindo os psiquiátricos,
será proibido fumar, sem exceção.
ABP - Um tema
muito polêmico tem sido o uso medicinal de cannabis,
para pacientes portadores de HIV e câncer, por exemplo,
o Canadá possui um programa estatal de distribuição
de cannabis medicinal, qual sua opinião sobre ele?
MK
- Este é um assunto que não possuo muita experiência
clínica, mesmo dentro do Programa de Saúde
do Médico. No entanto, eu apóio a posição
da Sociedade Canadense de Medicina para Dependentes, que
reconhece que há provas evidentes de que o cannabis
pode ser útil para o alívio de dor dentro
de algumas restrições, mas deixa claro que
há a preocupação em se usar substâncias
poderosas e nocivas, que não foram submetidas a estudos
científicos mais profundos, em defesa de seu uso
como agente terapêutico. Eu acho muito difícil
apoiar o uso deliberado de qualquer tipo de droga. Por outro
lado, há drogas testadas e aprovadas no auxílio
a essas doenças.
ABP - Em sua
segunda visita ao Brasil, dentro do Programa de Atenção
à Saúde do Médico, desenvolvido pelo
Conselho Federal de Medicina do Brasil, em parceria com
a Associação Brasileira de Psiquiatria, qual
sua expectativa em relação a seu desenvolvimento?
Existem planos de cooperação internacional
entre o Brasil e o Canadá?
MK
- Eu estou ansioso para visitar o Brasil pela segunda vez,
sendo patrocinado novamente pela Associação
Brasileira de Psiquiatria. Terei a oportunidade de dividir
nossa experiência canadense e aprender mais sobre
a iniciativa brasileira de assistência à saúde
do médico. É verdade que eu não estou
muito a par sobre os projetos brasileiros ou algum programa
nessa área, portanto é claro que eu tenho
muito a aprender.
No Canadá, nós desenvolvemos programas para
a saúde do médico desde as últimas
décadas. Sabemos que não acontece o mesmo
em vários outros países do mundo, mas acreditamos
que médicos em qualquer outro lugar merecem o mesmo
tipo de apoio. Acho que é de minha responsabilidade
dividir nossa experiência com outros países
e tenho a sorte de poder fazê-lo. No Canadá,
temos a vantagem de relações de cooperação
e apoio com os Estados Unidos, Inglaterra, Austrália,
Nova Zelândia, Alemanha, entre outros. E espero que
eu consiga desenvolver o mesmo tipo de relação
com meus colegas do Brasil.
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